O cheiro do ferrugem está me matando, são tantas coisas para eu reclamar, mas só me limito a falar de uma. Esse maldito cheiro. Esqueço de me desesperar pelo fato de eu estar trancada em uma sala escura, cheia de grades, nada de internet, celular e sem me comunicar com alguém. Além do rapaz que vem encapuzado todos os fins de tarde, perguntar se está tudo bem e trazer mais comida com um tempero horrível e água mineral.
Esqueço também de mencionar o fato de ter sido sequestrada, sendo mantida em cárcere privado e ter me apaixonado pelo meu sequestrador, esse no qual nunca vi o rosto mas mesmo assim estou morrendo de amores.
Esqueço também de mencionar o fato de ter sido sequestrada, sendo mantida em cárcere privado e ter me apaixonado pelo meu sequestrador, esse no qual nunca vi o rosto mas mesmo assim estou morrendo de amores.
A minha vida sempre foi complicada, para uma filha única de um juiz que já colocou muita gente atrás das grades e que sempre teve tudo nas mãos. Só posso ser louca em confirmar que não estou tão desesperada. Acho até que aqui nesse escuro que não tem fim está melhor, do que uma casa cheia de empregados e pais que acham o trabalho mais importante do que passar alguns segundos com a filha.
Hoje faz cinco dias que estou vivendo essa tortura, lembro que saia da faculdade, eram tantos trabalhos para serem entregues. Estágio, família, eu pensava em várias coisas, até que uma van freou em minha frente, fui empurrada por trás, lembro de ver um par de botas de couro que um rapaz usava e depois disso tudo ficou escuro. Acordei aqui nessa sala imunda, agradeço aos céus por não poder ver nada agora, posso jurar que tem ratos caminhando aqui.
A luz só é acendida uma vez por dia, quando ele, o meu sequestrador vem me trazer comida, não sei por qual motivo eu não conseguir sentir raiva desse brutamontes. Deve ser a forma como me trata, sempre tão educado, me chama de senhora Wesley e até diz que sou bonita. Francamente, acho que tem drogas nessas comidas, como posso me apaixonar por uma rapaz que me deixa aqui em perigo? Como posso me apaixonar por alguém que nem mesmo vi o rosto? Ouço passos lá fora, ele já chegou.
-Boa tarde senhora Wesley- Acendeu as luzes e caminhou próximo a mim. - Trouxe comida, mas te garanto que essa será a sua última refeição aqui nessa espelunca, peço desculpas mas era assim que as coisas precisavam funcionar, tinha assuntos a tratar com o seu pai. O dinheiro vai ser entregue hoje às 0h e logo você voltará para a sua família.
Tirou minhas amordaças e senti um alivio fluir em meus lábios, não tive vontade de falar, só de observá-lo. Como seria o seu rosto? Além de alto e forte ele era doce comigo, às vezes ele ficava conversando horas, desabafando sobre o seu dia e sua história com o meu pai.
Ele havia cometido um crime, o meu pai o colocou atrás das grades e agora o sequestrador quer vingança, ou seja uma boa quantia de dinheiro para construir sua vida fora do país, mal sabe ele que meu pai tem sempre uma forma de se livrar de calos que aparecem para incomodá-lo, principalmente quando mexem com a família dele.
-Mas agora o dinheiro não mais me importa - Sua voz saiu sombria quando sentou-se ao meu lado.
-E o que te importa agora? - Falei um pouco assustada, mas curiosa.
-Você... você me importa, eu sei que fui tolo com essa ideia de sequestro mas o fato é que não imagino como será a minha vida quando você não tiver mais aqui, torço todos os dias pelo horário que nós nos veremos. Desde que te conheci, mudei alguns conceitos graças a seus conselhos... Eu sonho em te ter pra sempre, construir uma vida ter filhos entende? - Levou a mão a sua cabeça e... meu Deus! Ele tirou o capuz, olhou em meus olhos ao terminar essas palavras.
Eu não acreditei no que havia terminado de escutar. Seu rosto era lindo, rústico, quadrado, tinha olhos que lembravam a cor das folhas secas de outono, cabelos lisos que caiam por seus ombros. O meu amor estava sendo correspondido, amor louco, mas agora não quero saber das consequências, quero sentir ações... estou assustada.
-Eu gosto de você - Disse. Eram tantas coisas para serem ditas mas meus lábios trêmulos só liberaram essas palavras.
-Não me importo que saiba sobre a minha identidade, agora eu quero que sinta que realmente te amo, mas não quero mantê-la aqui, presa, sofrendo por minha causa, eu sei que isso vai me doer muito mas... é hora de irmos.
Eu observei boquiaberta, aquele homem lindo, seus cabelos ondulados brilhavam com o reflexo da luz, o cavanhaque e os lábios rosados pareciam estar chamando minha boca. Levantei com dificuldades até me jogar em seus braços e o beijei, segurando sua nuca. Um transe me tomou o corpo, conforme sua língua invadia minha boca desesperada, eu o retribuía com amor que exalava de dentro de mim, seus braços me apertavam mas não era doloroso, eu o amo tanto que sou capaz de gritar, só imploro mentalmente que ele não pare esse beijo.
-Anda, coma isso e se prepara para irmos - Disse me empurrando de si com força.
Não acredito que vou ter que deixa-lo, eu sonhei tanto com esse momento e ele aconteceu tão rápido e já vamos nos despedir?
- Eu não quero ir! - Gritei e meus olhos ameaçaram a derramar lágrimas - Você não entende? Eu te amo muito! Mas eu também conheço o meu pai e sei que ele não vai deixar barato o que você fez, é bem provável que você morra durante essa troca e eu não quero nem imaginar isso - Falei essas últimas palavras acariciando o seu rosto.
-Eu já tomei minhas precauções- Disse afastando- se de mim - Está decidido, eu não quero vê-la aqui presa, eu te amo minha pequena, mas não quero que sofra.
-Por favor não me deixe! Eu sonhei tanto com esse momento e com o dia no qual veria o seu rosto - Chorei e o abracei desesperada- Por favor, poderemos fugir, para qualquer lugar, nada precisa ser assim, apenas fique comigo e me deixe ser sua.
As minhas lágrimas escorriam dos meus olhos e aquele homem permanecia parado feito uma rocha envolvido pelos meus braços, seu indicador suspendeu meu rosto cabisbaixo e senti novamente o beijo, seu lábio macio, a barba roçando em meu rosto, as caricias, seu desejo, meus arrepios, o amor, até que um estrondo ecoou naquele ambiente. A porta havia sido arrombada e logo em seguida um pipoco seco e o sequestrador caiu em meus braços com o olhar assustado e sangue nas costas.
Meu pai surgiu atrás da equipe de policiais com o seu semblante preocupado e olhar vitorioso, de que sempre faz o que pode para ter o que quer e eu, bom me mantive perplexa tremula até que chorei.
- Nãoooooooo! - Corri para o seu corpo que estava imóvel ao chão. - Nãooo! - Gritei louca, e todos que estavam na sala incluindo o meu pai me olharam sem entender - Por favor acorde, por favor...
Meu desespero não o trouxe a vida, depois desse dia tenho consultas constantes com o psicólogo da família, meu pai acha que o sequestro me deixou maluca. Mas posso dizer que estou maluca, triste e morrendo de amor.
Descanse em paz meu querido, te amo, espere por mim.






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